O Tao da Brígida

Seja água, meu amigo. Seja água. Assim dizem as legendas de uma das entrevistas de Bruce Lee numa tradução de “Be water, my friend. Be water.” O ator repetia ali um de seus monólogos de um antigo roteiro de televisão. Mas o verbo “to be” também pode significar “estar”. Estar num sentido transitório da palavra. Esteja água, meu amigo. Esteja água.

Os antigos taoístas acreditavam que possuímos todos os elementos da natureza em nós. Afinal a energia (chi) é a mesma em todos os seres vivos de nosso planeta. Para entender a energia, imaginem um balde cheio de água. Se colocarmos um copo dentro do balde, a água que está dentro do copo é a mesma que o circunda e que está dentro do balde. A chave seria buscar o
equilíbrio entre os elementos no nosso corpo, na nossa casa, em nossa cidade e assim por diante. Quando há desequilíbrio, ficamos doentes.

Ching em chinês pode ser lido como tratado, livro, caminho, caminhante, caminhar ou até mesmo atalho. Não o atalho do caminho mais rápido ou direto, mas atalho de um caminho pouco ou nunca percorrido. O atalho pode ser um caminho mais longo que o de uma estrada, pode também fazer com que o caminhante fique andando em círculos. As inúmeras interpretações do ideograma chinês são possíveis por ser este uma imagem e não uma representação de fonemas. Se buscarmos a interpretação literal do ideograma Ching, talvez pudéssemos interpretar como o atalho do fio de seda. O bicho da seda nasce como larva, se alimenta e cresce até o momento em que pára e começa a excretar um fio ao redor de seu próprio corpo, criando um casulo. A etapa seguinte seria romper o casulo e se tornar inseto. O homem, para fazer um tecido de seda, joga milhares de casulos ainda vivos em água fervente
para extrair um único e inteiriço fio de cada um deles.

I em chinês pode ser traduzido como mutável, imutável, transmutável e sintetizável. É a mudança e o movimento; o momento e a circunstância, a relação entre opostos. É a imagem da androgenia.

O I Ching, o tratado das mutações, possui oito trigramas, conjunto de três linhas, cada uma com uma energia yin ou yang. Entre eles, os trigramas terra e água.

Terra, conjunto de três linhas yin, é o ventre, é a mãe. A terra que recebe as folhas secas e as transforma em adubo. Onde as sementes germinam e onde as árvores buscam seus nutrientes. A terra é a receptividade. Brígida se envolve em sua própria casa. As paredes são talhadas para serem abrigo.

O trigrama água representa um alerta. A água pode ser calma, mas também traiçoeira. Águas de grande profundidade não apresentam boa visibilidade; rios podem esconder redemoinhos e corredeiras; o mar pode virar de uma hora para outra. O conselho que o I Ching dá é adaptar-se, assim como a água que toma a forma de seu receptáculo.

Durante a produção deste texto, consulto o livro-oráculo para saber como prosseguir e ele me joga justamente aos trigramas terra e água, nesta ordem. Chego ao hexagrama União. Ele fala de como a água umidifica a terra tornando-a fértil e como a terra sustenta a água para que chegue ao seu destino natural: o mar. A imagem do ideograma fala da aproximação através do inconsciente ou da essência das pessoas que estão ao lado a lado, percorrendo o mesmo caminho na mesma direção — esta é a verdadeira união, que se concretiza através do coração.

O bicho da seda coloca a todo momento a sua vida por um fio. Enquanto vive, trabalha e enquanto trabalha, vive. Hoje, Brígida abriga em seu corpo a medula óssea de seu irmão. Sua casa-corpo abriga um pedaço de sua família e, graças a isso, vive e transforma essa experiência em trabalho. Terra, aceitar e transformar.

Em uma tarde, em uma árvore, ela coloca um vestido da mesma cor que a copa florida no Aterro do Flamengo. Sobe o tronco com a ajuda de uma escada e fica ali lendo. O livro se chama Hagakure, que pode ser traduzido como folhas caídas ou escondido sob as folhas. Foi escrito no Japão no século XV por um antigo samurai, que vendo seus costumes sendo extintos, tenta passá-los a um jovem samurai. Dentre eles, aconselha que os problemas complexos sejam tratados de forma simples e os problemas simples, tratados de forma complexa — uma maneira de se estar mais consciente no aqui e agora, desenvolvendo a intuição e a sagacidade. Água, adaptação.

Brígida escava as paredes, coleta goteiras e habita o espaço que é tanto sua moradia como seu ambiente de trabalho. Ela não faz distinção entre arte e vida. Tudo é matéria prima a ser transmutada. Para alguns pode parecer simples e fácil, mas a vida pode ser mais dura e traiçoeira que um bloco de pedra. Esculpir a vida talvez se assemelhe a este processo de tecer
uma única linha, como a água persistente goteja e vai abrindo na pedra seu caminho. Um fio que envolve e encapsula o corpo para que este possa evoluir e sair dali.

Esteja terra, minha amiga. Esteja terra. Enquanto há vida, haverá arte e enquanto houver arte, há vida.

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Sou artista visual e escrevo contos baseado em exposições.

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Leo Ayres

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