Motor à explosão

No início da década de 1940, numa sala no Hospital Psiquiátrico Pedro II, Abraham aguarda pacientemente. Um relógio de pêndulo giratório sobre a mesa marca sonoramente cada segundo de sua espera. A mesa de madeira possuem veios que o faz lembrar dos gráficos dos cursos de física em seus estudos de motores à explosão em Tel Aviv. Na parede, uma caixa de luz para raios-x foi esquecida acesa e uma das lâmpadas falha e pisca incessantemente.

A luz do sol, filtrada pelo vitral colorido das janelas, já havia percorrido um longo caminho pela sala quando ouve a porta se abrindo. Antes mesmo que a jovem senhora entre, ele pode ver o contorno de seu frágil corpo através dos vidros canelados. Junto com ela, entra seu amigo Almir Mavignier, “esta é a doutora Nise da Silveira”. Abraham levanta e estende a mão para cumprimetá-la.

Começa então sua visita aos ateliês de pintura. Os pacientes fazem parte de um tratamento revolucionário em que aulas práticas de arte substituem a medicação e os eletrochoques. Através de seus desenhos e pinturas, a esquizofrênica mostra toda a sua relação conturbada com a mãe e seu amor proibido. As imagens revelavam mais do que a paciente conseguia comunicar através da linguagem verbal. O artista se perguntou então se o mesmo poderia ser aplicado às suas pinturas e se não estaria ele mesmo revelando por demasiado seus medos, raivas e frustrações.

Não se sabe ao certo o que ali chamou a atenção de Abraham Palatnik, mas deixou de vez a pintura tradicional e passou a se dedicar à produção de objetos cinéticos que marcaria o início da arte cinética no Brasil.

Sou artista visual e escrevo contos baseado em exposições.

Sou artista visual e escrevo contos baseado em exposições.