Leo Ayres

May 24, 2019

2 min read

E se…

Quando a nova diretora do centro cultural lhe ligou dizendo que enviasse o projeto novamente, Dunga não pensou duas vezes. Ele teria apenas dois meses para fazer uma exposição diferente das demais, com sutis críticas ao governo Apocalipse Now. Começou vários trabalhos do zero e até reaproveitou pinturas antigas. Em sua vitrola, tocava a trilha sonora do filme Central do Brasil, que inspirava cada gesto vigoroso sobre a tela, refletindo a violência da desigualdade social no país que só teria a piorar como resultado das últimas eleições.

Labuta de René Machado na Casa de Cultura Laura Alvim

Em alguns trabalhos, aparecem os rostos de Janet Leigh em Psicose e de Jack Nicholson em O Iluminado, como metáforas ao pânico e terror dos cortes na Educação e na Previdência, frutos de um psicótico no poder. Faz muito uso da cor preta, como o luto dos estudantes, professores, artistas, aposentados e todos os demais prejudicados pelo atual desgoverno. Em outro trabalho, linhas verticais parecem enumerar cada um dos 80 tiros do exército que assassinaram um músico na Maré. Logo ao lado, chama a atenção uma bandeira de listras negras, onde inscreveu o nome de diversos artistas consagrados pelo mercado de arte norte-americano. Atravessado aos yankees, seu próprio nome aparece em contraponto.

Na sala próxima à saída da exposição, fotos em grande escala mostram portas retratadas em cidades como Berlim, Paris e Nova Iorque, talvez apontando que a única solução para o caos que nosso país sofre, seja migrar para um destes lugares. A grande ironia é que Dunga nunca saiu de sua cidade. Ele foi criado desde os 4 anos na zona norte do Rio de Janeiro, no bairro de Engenho de Dentro. De lá, eles trouxe todas suas referências com as quais trabalha até hoje. Desde seu início de carreira na pixação, ainda adolescente, o artista sempre se engaja em causas sociais.

Finalmente, chega o momento de sua individual num centro cultural conceituado na zona sul da cidade. Ele entra na sala com sua calça e as unhas sujas de tinta. Fala apaixonadamente sobre cada tela. Pede para tirar fotos para a divulgação na frente de um dos quadros e pede gentilmente “Cuidado para não encostarem na tela, porque esta aqui já está vendida”.

Sou artista visual e escrevo contos baseado em exposições.

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